Dá para combater a cárie antes mesmo de ela aparecer

Testes e aparelhos de última geração chegam ao país para detectar o problema num estágio em que ainda não é um caso sério – e pode ser revertido.

A visita ao dentista está inevitavelmente atrelada a uma infinidade de ferramentas diferentes. Do temido motorzinho ao aliviante esguicho d’água, esses dispositivos ajudam o profissional a limpar, examinar e tratar chateações em toda a cavidade bucal e já fazem parte da rotina de quem costuma passar por uma consulta – encontro que, diga-se, deve acontecer semestralmente. Essa lista de aparelhos vai ganhar ótimos reforços nos próximos meses: algumas novidades desembarcam no Brasil e prometem detectar a cárie logo cedo, em sua fase bem inicial.

Os especialistas são unânimes em afirmar que é possível brecar o avanço dessa doença se ela estiver no começo. Nessa situação, o esmalte perde os minerais protetores e o odontologista pode exigir do paciente uma atenção redobrada na limpeza de dentes, língua e bochechas, e um controle ainda mais rígido no consumo de doces (saiba mais no infográfico abaixo). “Ao mesmo tempo, fazemos uso de alguns produtos com flúor que devolvem ao sorriso as substâncias perdidas”, conta a dentista Livia Tenuta, professora da Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Universidade Estadual de Campinas, no interior de São Paulo.

Ao impedir que as bactérias cavem túneis nessas estruturas ósseas, é possível fugir de procedimentos invasivos e dolorosos – caso, por exemplo, da restauração, que lança mão de brocas e massas para limpar e fechar a cratera. “Por mais que o material seja de ótima qualidade, ele ainda não se compara ao dente intacto. Portanto, quanto menos mexermos ali, melhor”, atesta a dentista Sonia Groisman, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Uma das boas notícias da odontologia são os testes salivares, que podem ser divididos em estimulados ou não estimulados. No primeiro, o dentista oferece à pessoa uma goma de mascar neutra – as mordidas em sequência incentivam a produção de saliva. Na outra modalidade, o indivíduo cospe todo líquido que for capaz de produzir durante determinado período. No caso, o objetivo é medir a quantidade de saliva fabricada. Ora, esse detergente natural é responsável por limpar e equilibrar o pH da boca, o que evita diversos problemas, entre eles a tal da cárie. O normal é salivar 0,1 mililitro por minuto no exame não estimulado e entre 0,5 e 0,7 mililitro quando estimulado. Se as glândulas não estão trabalhando como deveriam, é sinal de que a cárie vai aparecer – se é que já não marca presença em algum cantinho obscuro da boca.

combate caries

Combate as cáries

Ainda no mundo do combate às cáries, um aparelho vem chamando a atenção: é o Quantitative Light-Induced Fluorescence, o QLF, que deve estar disponível no país até o final deste ano. Ele é uma espécie de câmera fotográfica que lança uma luz bem forte, captura imagens e passa as figuras para um computador. A claridade, de cor azulada, se transforma em um verde fluorescente quando se mistura com a brancura da dentição. “Muitas vezes, a cárie se esconde em locais em que não é possível visualizá-la. O QLF é interessante porque detecta justamente lesões escondidas nesse período inicial”, acrescenta o dentista Marcos Moura, presidente da Associação Brasileira de Halitose.

Essas fotografias mostram onde o processo de desmineralização – quando o esmalte perde elementos como o cálcio e o fosfato – está acontecendo de vento em popa. Diga-se aliás que o QLF indica exatamente o lugar em que estão concentradas as bactérias da moléstia. “Com isso, o tratamento se torna bem mais específico, focado no ponto em que se encontra o problema”, elogia Sonia Groisman.

Outro dispositivo bastante promissor é o Cariescan, que tem a vantagem de ser portátil e de fácil manuseamento. Ele joga em toda a boca pequenos sinais elétricos, que se espalham pelos dentes e verificam se há alguma irregularidade ou rugosidade estranha em seu exterior. “O Cariescan analisa a mancha branca, um dos primeiros sinais da cárie, e é capaz de quantificar essa lesão primária”, explica Livia Tenuta.

O Cariescan, parece, apresenta uma baita eficácia: de acordo com os fabricantes, ele acertou o diagnóstico de 94,8% dos casos estudados. Depois de escanear a boca por completo, ele passa para um PC todas as informações. Para isso, porém, não são necessários fios ou cabos: tudo é transmitido via bluetooth, uma tecnologia de troca de dados por meio da frequência de rádio – curiosamente, a palavra inglesa bluetooth significa dente azul. “Tanto ele quanto o QLF mostram com mais precisão o que o dentista muitas vezes já vê a olho nu”, completa Livia Tenuta.

Obviamente, as duas boas-novas são passíveis de críticas. A principal delas é a minúcia exagerada dos aparelhos. “Quando o dentista não enxerga a desmineralização por meio das manchas brancas, significa que esse processo é muito pequeno e pode ainda não estar relacionado propriamente com a cárie”, alerta o odontologista Marcelo Bönecker, professor da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo. Também é importante saber se essa perda de minerais no esmalte está ativa ou parada. “Em algumas situações, esses aparelhos induzem o dentista a pensar que existe um machucado em locais em que tudo de fato está em ordem. Portanto, acho que nada substitui um exame visual benfeito”, contrapõe Bönecker.

Essas duas ferramentas são evoluções de aparelhos que já tentavam reduzir o problema da cárie ao redor do mundo. Foram necessários diversos outros testes para que a ciência do sorriso mais bonito chegasse ao atual estágio. Um exemplo é o exame de transiluminação, que se valia de fibra óptica, sem contar as máquinas a laser, que fluoresciam as bactérias e o esmalte desmineralizado. Mas isso não quer dizer que essa história chegou a um ponto final: ainda faltam muitos avanços, e tecnologias futuras deverão aprimorar as conquistas da atualidade.

“Os dois aparelhos são o que há de mais novo na detecção de cáries. O que poderá fazer um ser mais vantajoso que o outro será o custo”, aponta Marcos Moura. Isso porque ainda não se sabe o preço que essas ferramentas terão ao desembarcar em território nacional. Provavelmente, as recém-chegadas serão bem caras. Mas a tendência é que, com o passar dos anos, barateiem e, assim, fiquem disponíveis a um maior número de indivíduos. Daí, as cáries que se cuidem: sua história de mais de 500 mil anos na cavidade bucal pode ter, enfim, um final feliz para os dentes.

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